
DESCRIÇÃO
DAS FORMAS DE CONSCIÊNCIA DA LOUCURA

1. Consciência
crítica : poderia também ser denominada "consciência
dialética”, ou se quisermos, talvez consciência denunciativa ou irônica. Aqui,
a loucura é experimentada através de seu confronto opositivo com a razão;
delimita-se a loucura pela diferença entre loucura e razão inclui um debate
porque a oposição é ambígua e é também um conflito; e é um conflito por ser
reversível (daí, ser esta consciência "dialética").
Embora saibamos que há diferença entre razão
e loucura, nada nos garante, nenhum referencial nos determina, nenhum
"ponto fixo" (4, p. 182) nos assegura de que lado está a razão e de
que lado está a loucura. É a "lucidez irônica" (4, p . 1 83 ) da consciência
crítica.
Uma ilustração deste conflito da
reversibilidade nascida da ausência de um parâmetro é fornecida por Foucault:
nos versos de um poeta: "aqueles que para viajar embarcam sobre as águas,
vêem passar a terra, não a embarcação“ . Ou nos seguintes: "tanto mais me
burilo e me aperfeiçoo, tanto mais creio que todo mundo desvaria"
2.Consciência
Prática. Poderia também ser denominada "cisão ritual"
(4, p . 1 87 ) , ou se quisermos, talvez consciência normativa ou social. Aqui,
a loucura é experimentada como uma realidade imposta pelas normas de um grupo
social.
A oposição agora se estabelece entre o
"dentro" e o "fora" do grupo, dependentemente dos padrões e
valores, não diretamente da razão, mas do grupo, que este pretende ditar as normas
da razão.
Torna-se baseada "na diferença entre
loucura e razão, consciência tornada possível na. homogeneidade do grupo
considerado como portador das normas da razão" (4, p. 1 83)
3. Consciência
Enunciativa. Poderia também ser denominada "reconhecimento
lírico" (4, p. 1 87) , ou se quisermos, talvez consciência indicativa ou
constatativa. Aqui, a loucura é experimentada antes de qualquer juízo ou
diagnóstico, antes de qualquer nível de valores (racionais ou grupais); ela é
reconhecida como um ser que está aí e que é de imediato constatado, quase que
apontado com um gesto, na existência concreta do louco.
Contudo, esta simples percepção também não é
tranqüila. Supõe, de algum modo, um recuo em relação à loucura, uma certa
dominação sobre ela, já que só se a reconhece se houver certo reconhecimento
anterior da não-loucura.
4. Consciência
Analítica: Poderia também ser denominada "saber" da loucura (4,
p. 1 87) , ou se quisermos, talvez consciência reflexiva ou cognitiva. É a
consciência da loucura nas "suas formas", "seus fenômenos",
seus "modos de aparição" (4, p. 1 85 )
Aqui se busca perceber a loucura no que nela
é cognoscível, reduzindo-a ao que nela é inteligível, sem o "perigo",
sem a "cisão", sem o "recuo" inclusos nas formas
anteriores. :e: a forma de consciência que "funda a possibilidade de um
saber objetivo da loucura" (4, p. 1 85)
Esta
forma, cada vez mais "racionalizada", tem prioridade na Idade
Moderna. Contudo, vale lembrar que mesmo reduzida à uma objetivação inteligível
e racional, a loucura guarda ainda seu fundo "patético", seu
"dramático", que escapa à "objetividade" do cognoscível.
O "fascínio do trágico", subsiste
mesmo na obscuridade, como que "nas noites dos pensamentos e dos
sonhos“
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