- Quando olhamos para o passado, a primeira imagem é talvez a de que os progressos científicos dos últimos trinta anos são de tal ordem dramáticos que os séculos que nos precederam não são mais que uma pré-história longínqua. (p.5)
- É possível dizer que em termos científicos vivemos ainda no século XIX e que o século XX ainda não começou, nem talvez comece antes de terminar. (p.5-6)
- O autor faz uma espécie de (digamos assim) "metáfora" em relação à teoria sinérgica do físico teórico Hermann Haken para tratar a ambiguidade e a complexidade da situação do tempo presente, um tempo de transição .
- Tempos de transição, assim como outros anteriores, nos quais se faz "necessário voltar às coisas simples, à capacidade de formular perguntas simples, perguntas que, como Einstein costumava dizer, só uma criança pode fazer mas que, depois de feitas, são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade". (p.6)
- Em 1985 (ano em que este texto foi escrito), sentia-se a perplexidade de perder a confiança epistemológica.
- Estamos de novo regressados à necessidade de perguntar pelas relações entre a ciência e a virtude. Temos finalmente que perguntar pelo papel de todo o conhecimento científico acumulado no enriquecimento ou no empobrecimento prático das nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciência para a nossa felicidade.
- Estamos no fim de um ciclo de hegemonia de uma certa ordem científica.
- Teremos que ser mais rousseauianos no perguntar do que no responder
O livro Um Discurso sobre as Ciências, do professor universitário de Coimbra, e influente sociólogo, Boaventura de Sousa Santos, disserta sobre as ciências. Logo no início escreve: Desde o século XVI, onde todos nós, cientistas modernos, nascemos, e cita, depois, os grandes cientistas que estabeleceram e mapearam o campo teórico: Adam Smith, Ricardo, Lavoisier, Darwin, Marx, Durkheim, Max Weber, Pareto, Humboldt, Planck e Poincaré. Tentarei mostrar mais adiante por que, entre os citados, Max Weber, Ricardo Pareto, Marx Durkheim, não devem ser colocados entre os cientistas, sem que isso diminua a sua estatura e influência intelectuais, é claro. Isso será mais evidente quando lembrarmos de que se ocupa a ciência.
O PARADIGMA DOMINANTE
- A nova racionalidade científica, sendo um modelo global, é também um modelo totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas. (p.11). Simboliza a ruptura do novo paradigma científico com os que o precedem.
- os protagonistas do novo paradigma conduzem uma luta apaixonada contra todas as formas de dogmatismo e de autoridade.
- esta nova visão do mundo e da vida reconduz-se a duas distinções fundamentais, entre o conhecimento científico e o conhecimento do senso comum, por um lado, e entre natureza e pessoa humana, por outro.
- o conhecimento científico avança pela observação descomprometida e livre, sistemática e tanto quanto possível rigorosa dos fenômenos naturais (p.13).
- As leis da ciência moderna são um tipo de causa formal que privilegia o como funciona das coisas em detrimento de qual o agente ou qual o fim das coisas. É por esta via que o conhecimento científico rompe com o conhecimento do senso comum.
- Um conhecimento baseado na formulação de leis tem como pressuposto metateórico a ideia de ordem e de estabilidade do mundo, ideia de que o passado se repete no futuro. (p.17)
- Bacon, Visco e Montesquieu são os grandes precursores da descoberta das leis da sociedade.
- Há duas formas de conhecimento científico - as disciplinas formais da lógica e da matemática e as ciências empíricas segundo o modelo mecanicista das ciências naturais - as ciências sociais nascerem para ser empíricas.
- As ciências sociais tem um longo caminho a percorrer no sentido de se compatibilizarem com os critérios de cientificidade das ciências naturais. Os obstáculos são enormes nas não são insuperáveis: as ciências sociais não dispõem de teorias explicativas que lhes permitam abstrair do real para depois buscar nele, de modo metodologicamente controlado, a prova adequada; as ciências sociais não podem estabelecer leis universais porque os fenômenos sociais são historicamente condicionados e culturalmente determinados; as ciências sociais não podem produzir previsões fiáveis porque os seres humanos modificam o seu comportamento em função do conhecimento que sobre ele adquire; os fenômenos sociais são de natureza subjetiva; as ciências sociais não são objetivas porque o cientista social não pode libertar-se, no ato da observação, dos valores que informam a sua prática em geral e, portanto, também a sua prática de cientista. (p.20)
- Na teoria das revoluções científicas de Thomas Kuhn o atraso das ciências sociais é dado pelo caráter pré-paradigmático destas ciências, ao contrários das ciências naturais, sessas sim, paradigmáticas.
- A ciência social sempre será uma ciência subjetiva e não objetiva como as ciências naturais.
A CRISE DO PARADIGMA DOMINANTE
- São hoje muitos e fortes os sinais de que o modelo de racionalidade científica atravessa uma profunda crise.
- A crise do paradigma dominante é o resultado interativo de uma pluralidade de condições (condições sociais e condições teóricas).
- Condições teóricas:
- Einstein constitui o primeiro rombo no paradigma da ciência moderna (relatividade da simultaneidade).
- a mecânica quântica.
- o rigor da matemática
- avanços do conhecimento nos domínios da microfísica, da química e da biologia nos últimos vinte anos.
- Não é arriscado dizer que nunca houve tantos cientistas-filósofos como atualmente, e isso não se deve a uma evolução arbitrária do interesse intelectual.
- O rigor científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objetivar os fenômenos, os objetualiza e os degrada, que ao caracterizar os fenômenos, os caricaturiza.
- Quaisquer que sejam os limites estruturais de rigor científico, não restam dúvidas que o que a ciência ganhou em rigor nos últimos quarenta anos perdeu em capacidade de auto-regulação.
- A caracterização da crise do paradigma dominante traz consigo o perfil do paradigma emergente.
SANTOS, Boaventura Sousa. Um Discurso sobre as Ciências. Porto, Edições Afrontamento,1995, 7ª edição, p.5-35.
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